A Ilíada de Homero: inspiração temática para a Filosofia do Direito

Autor:Moacyr Motta da Silva
Cargo:Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina

Moacyr Motta da Silva: Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina. Professor titular do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Cursos de Mestrado e Doutorado. Membro da Academia Catarinense de Filosofia de Santa Catarina.

Introdução

O artigo que ora apresenta-se1, tem o seu olhar voltado para a Ilíada3 de Homero4, obra que consagrou as letras da cultura da Grécia da Antiguidade.5 Por entender que a poesia de Homero permite várias leituras, ou seja, além da clássica Guerra de Tróia,6 de cunho épico,7 os versos descortinam um universo temático de diferentes assuntos. Como resultado da pesquisa, foi possível criar-se o seguinte conjunto de temas: a) a predição da Tragédia. b) a Guerra entre Dois Reinados: causa primeira. c) da Moral. Leitura. d) Da Política. e) Estética poética. f) O simbólico – a Balança como Instrumento de Equilíbrio. g) Do Juiz. Leitura. h) Da Cultura Religiosa e Sociedade. Leitura . I ) a poesia de Homero como Instrumento pedagógico. Por se tratar de obra de natureza poética, o autor teve a necessidade de socorrer-se da leitura de pensadores contemporâneos de Homero, tais como Hesíodo, Platão. O autor contou, igualmente, com auxílio teórico de pesquisadores da atualidade como Comte Spoville, Emille Durkheim, Jonathan Barnes e outros referidos em notas de roda-pé.

O objetivo a ser alcançado neste estudo está em colher subsídios, fundamentações, como contribuições teóricas para à Filosofia do Direito. O autor considera importante desenvolver-se pesquisas em áreas de saberes localizadas em outros sítios do conhecimento, posto que há sempre a esperança de encontrar-se assuntos que ampliem o pensar crítico, reflexivo do estudioso do Direito. A partir deste propósito, o autor foi estimulado a penetrarno interior dos versos da Ilíada de Homero, com o objetivo de identificar dados históricos, políticos que contribuíssem para explicar-se, por exemplo, como era entendido o significado de justiça, de moral, de direito, de costumes ligados à religião. A pesquisafoi exitosa, estimuladora para novos empreendimentos, por conseguir alcançar o objetivo do trabalho .

O Poema: aspectos destacados ( I )
A predição da Tragédia

Na leitura da Ilíada, Homero põe na boca de Helena, a seguinte sentença: “ Sobre nós fez Zeus abater um destino doloroso, para que no futuro sejamos tema de canto para homens, ainda por nascer.” 8 As palavras de Helena parecem antecipar a previsão de um futuro carregado de infelicidades. Homero comunica ao leitor, que por obra de Zeus, a vida de Helena e Alexandre servirá de inspiração para os poetas que ainda virão. A leitura do verso parece indicar que Zeus, na condição de Deus supremo de todos os deuses e homens, possuía o poder de influir no destino de cada pessoa humana. Essa prerrogativa, ao que se infere da leitura do poema, leva a supor-se que Homero acreditava na existência de um Deus supremo. Em outro trecho do poema, Menelau, primeiro esposo de Helena pede a sanção máxima para os dois infiéis : “que morram aqueles dois, para quem já foi preparada a morte e o destino.”9 Provavelmente, o poema traz a mensagem, no sentido moral, de dizer que todo aquele que infringir princípios, regras consagradas pela Sociedade, se submeterá às sanções por ela impostas. Esse vaticínio parece uma das sanções morais do poema. Aceitando-se este entendimento, reconhece-se que a Ilíada assume um caráter moral. Observado o poema por este ângulo, deduz-se que Homero foi educador moral.

O Poema: aspectos destacados (II)

A guerra entre dois reinados: causa primeira

O poema apresenta seu epicentro numa relação de amor considerada imoral.10 Os protagonistas centrais do poema são a bela mulher Helena, esposa de Menelau, rei da Lacedemónia e o jovem Alexandre, um dos filhos de Priamo, rei de Tróia. Alexandre era considerado por seus compatriotas, como pessoa devassa, bajulador, um verdadeiro ser imoral. Sua principal preocupação centrava-se na aparência física. Foi durante uma viagem diplomática que Alexandre fez à Lacedemónia, que o mesmo conheceu a bela Helena. O jogo de amor entre o jovem Alexandre e a sedutora Helena nasceu entre paredes do palácio do esposo Menelau. O ápice das relações diplomáticas alcança seu ponto de tensão, quando a jovem e bela Helena, esposa de Menelau o trai com Alexandre, em um dos aposentos do palácio do esposo.

Na fúria da paixão desenfreada, Helena é raptada por Alexandre para vivera espúria relação de amor, na cidade de Tróia. O impensado ato de intensa emoção amorosa que tomou conta de Alexandre e Helena foi como o dique de um rio, que, ao romper-se provoca devastação às regiões ribeirinhas. Em desagravo ao rapto de Helena, poucos foram os dias para que se iniciasse a sangrenta guerra entre Aqueus e Troianos.

O episódio de irrefletida paixão não teria maiores conseqüências, não fora a condição política que atingiu a honra do rei Menelau.

O esposo da bela Helena pertencia à nobre magistratura política Esparta. O jovem Alexandre cometera duas grandes traições. A primeira contra orei Menelau que o hospedou em sua jurisdição política. A segunda, contra a magistratura de seu próprio pai Priamo, rei de Tróia.

Inconformados com o rapto de Helena, os Aqueus decidem atacar Tróia para recuperara bela esposa de Menelau. Dois exércitos posicionam-se frente a frente, para degladiarem entre si. A falange dos Troinanos, coloca-se em posição de defesa. A falange dos Aqueus, fortemente armada prepara-se para o mortal ataque, visando recuperar a honra de sua cidade.

Vítimas e ofensores acham-se_diante dos portões centrais de Tróia. Menelau toma a dianteira de seu grupo e propõe ao príncipe Alexandre um duelo entre ambos. A cena é marcada por insultos entre os contendores. Heitor, um dos irmãos de Alexandre sugere que a guerra seja decidida entre Menelau e Alexandre.

Menelau aceita a proposta. Observa que o pacto seja selado pelo sangue de um dos adversários. Helena, do alto do palácio de Alexandre teme a iminência da terrível luta. O duelo dá vantagem a Menelau, diante de sua condição física e habilidades para guerras. Porém, a deusa Afrodite vem em socorro de Alexandre, e o leva envolto em uma névoa, para Helena.

O prodígio da deusa Afrodite retira Alexandre, definitivamente, da luta. Foi reconhecida a vitória de Menelau sobre Alexandre. Diante da frustrada vingança, tem início a guerra entre Aqueus e Troianos. Os Aqueus por suas habilidades para a guerra conquistam o adversário.11

A guerra entre os contendores adquire proporções inimagináveis. Porém duas delas se destacam como epílogo. A primeira corresponde à proposta de Pátroclo, o leal amigo de Aquiles. O jovem Pátroclo pede a Aquiles para comandar a batalha, pois era seu desejo recuperar a honra dos Aquianos. O amigo empresta-lhe o faiscante elmo, as armas e a armadura. Aquiles adverte ao jovem guerreiro que apenas afaste os Troianos, da cercania das naus, sem os perseguir. Pátroclo, porém desobedece Aquiles e se aproxima das cercanias da cidade de Tróia. Esse é o instante em que Heitor, o matador de homens, luta com Pátrocolo e o mata, cruelmente. Inconformado com a brusca interrupção do destino do amigo, Aquiles jura vingar-se. Enfurecido, combate entre Aquiles e Heitor, um dos irmãos de Alexandre.12

Leitura I
Da Moral

O poeta Homero, provavelmente pretendeu evidenciar, como tema de fundo do poema a Ilíada, o sentido moral. Entre as virtudes morais, certamente, a fidelidade representa uma das principais ações positivas nas relações humanas.13 A fidelidade não convive com a mentira, a traição, pois ambas constituem vícios morais. A fidelidade de natureza conjugal exige de cada um dos matrimoniais, permanente zelo no sentido do bem, do bom nas relações entre si e com a Sociedade. A fidelidade dos esposos requer voluntariedade e necessita, sempre da memória do outro. A fidelidade expressa-se pela ação voluntária e representa um dos verdadeiros fundamentos dos costumes morais.

O ato de infidelidade conjugal praticado por Helena, ao entregar-se a Alexandre constituiu uma ofensa, uma quebra da ordem moral consagrada tanto por Aqueus, quanto pelos Troianos.14 A vil traição não teria maior repercussão, não fosse a elevada condição política de Helena, esposa do rei da Macedenónia e de Alexandre ter sido recepcionado em palácio do rei Menelau, em missão diplomática de sua cidade.( Tróia)

Outro momento a destacar na Ilíada, corresponde às virtudes morais demonstradas por dois adversários políticos. Priamo soberano rei dos Troianos descede sua magistratura e, humildemente roga a Aquiles, príncipe da Tessália, o matador de Heitor, para que o mesmo devolva o cadáver de seu filho Heitor. Priamo já com avançada idade, tivera conhecimento de que Aquiles matara seu filho Heitor, por vingança da morte de Pátroclo. A súplica de Priamo era para não deixar os restos mortais de seu filho insepulto. Sua intenção era levar o cadáver de Heitor, para enterrá-lo em sua terra natal. (Tróia). Ponderava o ancião Priamo, que mesmo em situações de guerra, era costume dos povos cobrir com terra os mortos em combate. Já havia mais de dez dias que os restos mortais de Heitor eram arrastados pelo chão poeirento. No céu, abutres em vôos macabros, preparavam-se para festejar o próximo banquete. ( o cadáver de Heitor). Diante dos insistentes pedidos de perdão de Priamo, já de...

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