Expert witness and cognitive biases: the problem of the questions and the complementary questions in the Brazilian criminal procedure

Pages11-44
Date01 July 2026
Published date01 July 2026
AuthorMiguel Katz Zagury Fragelli
Subject MatterDerecho Procesal
Quaestio facti. Revista Internacional sobre Razonamiento Probatorio / International Journal on Evidential Legal Reasoning
Año 2026 11 pp. 11-44 DOI: 10.33115/udg_bib/qf.i11.23228
Quaestio facti. Revista Internacional sobre Razonamiento Probatorio
Quaestio facti. International Journal on Evidential Legal Reasoning
Sección: Ensayos
2026 l 11 pp. 11-44
Madrid, 2026
DOI: 10.33115/udg_bib/qf.i11.23228
Marcial Pons Ediciones Jurídicas y Sociales
© Miguel Katz Zagury Fragelli
ISSN: 2604-6202
Recibido 1/11/25 | Aceptado 25/5/26 | Publicado online: 05/06/2026
Editado bajo licencia Reconocimiento 4.0 Internacional de Creative Commons
PROVA PERICIAL E VIESES COGNITIVOS:
O PROBLEMA DOS QUESITOS E DOS QUESITOS
COMPLEMENTARES NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO
Miguel Katz Zagury Fragelli*
RESUMO: O artigo aborda o problema dos vieses cognitivos na produção da prova pericial, focando
no processo penal brasileiro. A partir da análise descritiva de estudos empíricos realizados, con-
ceitua esses vieses, no que consistem os vieses de conrmação e de contexto, como podem afetar
essa prova e o que fazer para limitá-los, analisando se o princípio do contraditório pode servir para
tanto. Assim, examina se esses vieses podem afetar a fase de formulação de quesitos — iniciais ou
complementares — aos peritos, uma etapa inicial na formação dessa prova, mas que pode colocar
em risco seus resultados. Ao nal, a partir do tema dos quesitos, pretende demonstrar o risco de
tratar a prova pericial apenas por regras processuais que não prestam atenção ao problema dos
vieses cognitivos, o que pode signicar que institutos desenvolvidos para melhorar a qualidade das
perícias somente aumentem o risco de ocorrência desses vieses.
* Mestre em Raciocínio Probatório pela Universitat de Girona e pela Università degli Studi di
Génova. Especialista em Direito Penal Econômico pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Graduado
em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Advogado.
Esse artigo é uma versão atualizada do Trabajo Final del Máster que apresentei no programa do
Mestrado em Raciocínio Probatório da Universitat de Girona e da Università degli Studi di Génova.
Nesse trabalho, tive o privilégio e o prazer de ser orientado pela professora Carmen Vázquez, a quem
agradeço por todos os comentários e sugestões feitos, sem os quais o trabalho certamente teria um
resultado muito diferente. Agradeço também os professores Vitor de Paula Ramos e Edgar Aguillera,
membros da banca que avaliou o trabalho, pelos comentários e perguntas que me instigaram reexões
incorporadas nesta versão. Por m, não poderia deixar de agradecer os amigos que z durante o
Mestrado, com os quais discuti as primeiras ideias deste artigo: Matheus Badaró, Luis Felippe Fonseca
Católico, Renato Gandini, Daniel Mobley Grillo e Moacyr Coimbra.
12 MIGUEL KATZ ZAGURY FRAGELLI
Quaestio facti. Revista Internacional sobre Razonamiento Probatorio / International Journal on Evidential Legal Reasoning
Año 2026 11 pp. 11-44 DOI: 10.33115/udg_bib/qf.i11.23228
PALAVRAS-CHAVE: processo penal; prova pericial; vieses cognitivos; princípio do contraditório;
quesitos.
EXPERT WITNESS AND COGNITIVE BIASES: THE PROBLEM
OF THE QUESTIONS AND THE COMPLEMENTARY QUESTIONS
IN THE BRAZILIAN CRIMINAL PROCEDURE
ABSTRACT: e article addresses the problem of cognitive biases in the production of expert evi-
dence, focusing on the Brazilian criminal procedure. Based on a descriptive analysis of empirical
studies, it conceptualizes these biases, what conrmation and contextual biases consist of, how they
can aect this evidence and what could be done to limit them, analyzing if the adversarial prin-
ciple can serve this purpose. It examines whether these biases can aect the phase of formulating
questions — initial or complementary — to experts, an initial stage in the formation of expert
evidence, but that can compromise its results. Finally, based on the theme of those questions, it
aims to demonstrate the risk of treating expert evidence through procedural rules that do not pay
attention to the problem of cognitive bias, which can mean that institutes developed to improve
the quality of expert evidence only increases the risk of these biases occurring.
KEYWORDS: criminal procedure; expert evidence; cognitive biases; adversarial principle; questions.
SUMÁRIO: 1. INTRODUÇÃO.— 2. PROVA PERICIAL E VIESES COGNITIVOS: RISCOS E
CONTROLES: 2.1. Vieses cognitivos na prova pericial; 2.2. Contraditório, parcialidade cognitiva
e controle efetivo da prova pericial.— 3. PRODUÇÃO DA PROVA PERICIAL NO PROCES-
SO PENAL BRASILEIRO: 3.1. Contexto da produção da prova pericial; 3.2. Rito de produção
da prova pericial; 3.3. Caso de estudo: quesitos e quesitos complementares.— 4. QUESITOS,
QUESITOS COMPLEMENTARES E PROBLEMAS RELATIVOS AOS VIESES COGNITI-
VOS NA PRODUÇÃO DA PROVA PERICIAL NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO: 4.1.
Quesitos no inquérito policial: possível fonte de vieses de conrmação e de contexto; 4.2. Quesitos
complementares: possível fonte de viés de conrmação.— 5. CONCLUSÃO.— Bibliograa.
1. INTRODUÇÃO
Até a segunda metade do século , a maioria das investigações criminais baseava-
-se apenas em provas testemunhais ou relacionadas aos instrumentos ou proveitos do
delito, sem utilizar provas periciais (Reid, 2018, p.106). Atualmente, essa tendência
foi alterada.
Recentes inovações tecnológicas atribuíram grande importância à prova pericial,
pois permite a comprovação de fatos que antes dicilmente eram demonstrados por
outros meios (Gascón Abellán, 2013, p.181-182).
PROVA PERICIAL E VIESES COGNITIVOS: O PROBLEMA DOS QUESITOS E DOS… 13
Quaestio facti. Revista Internacional sobre Razonamiento Probatorio / International Journal on Evidential Legal Reasoning
Año 2026 11 pp. 11-44 DOI: 10.33115/udg_bib/qf.i11.23228
A prova pericial tornou-se dominante, sendo a que mais inuencia o resultado dos
casos (Duce, 2013, p.16-17). É uma circunstância que decorre do desenvolvimento
da sociedade, não do desenho dos sistemas jurídicos (Duce, 2022, p.148-149).
No processo penal, objeto deste trabalho, isso é fortalecido pela tipicação, em
diferentes ordenamentos, de crimes que tutelam bens jurídicos coletivos, como o
meio ambiente e o sistema nanceiro (Tonini, 2004, p.196; Malan, 2015, p.293).
Assim, essa prova é necessária para explicar como o fato ocorreu e o que o causou
(Tonini, 2004, p.196) e para explicar ao juiz e às partes questões que não são de seu
domínio ou conhecimento (Malan, 2015, p.293).
Trata-se da nalidade da prova pericial: introduzir conhecimento especializado ao
processo. Como isso ocorre por meio de um ato de comunicação em que um terceiro
fornece um conhecimento a quem ele informa, a prova pericial é, em termos episte-
mológicos, um testemunho (Vázquez, 2021, p.82-88).
Assim, este trabalho adota três posições epistemológicas que orientam seu de-
senvolvimento. A primeira é a de que, tal qual uma testemunha comum, o perito
oferece uma interpretação sobre os fatos, havendo uma diferença de grau, mas não de
categoria, entre ambos (Vázquez, 2021, p.88-89). Enquanto qualquer pessoa pode
ser uma testemunha, um perito precisa ter conhecimento teórico e prático: deve ter
formação técnica em determinada área e saber como utilizá-la quando solicitado
(Vázquez, 2021, p.71-72).
A segunda é a de que, no processo, a principal nalidade da prova é a busca pela
verdade, sendo um meio para obter conhecimento sobre os fatos (Ferrer Beltrán,
2017, p.58).
A terceira é a de que, para esse processo ser racionalmente controlável, a verdade
deve ser compreendida pela noção de correspondência: um enunciado sobre os fatos
será verdadeiro quando representar o que realmente ocorreu (Badaró, 2019, p.86-88).
Logo, o objeto de um processo não consiste nos fatos em si, mas sim no enun-
ciado fático, na hipótese formulada sobre esses fatos (Badaró, 2019, p.70-71). A-
nal, todo processo de conhecimento de um fato é inuenciado pela interpretação de
quem o descreve (Prado, 2024, p.390).
Mesmo que o objetivo primário da prova seja a obtenção da verdade, trata-se de
um meio que possui limitações e que não garante por si só que a verdade será alcan-
çada. Assim, o enunciado fático será dado por provado não quando for verdadeiro,
mas sim quando existirem, no processo, elementos que sucientemente corroborem
a hipótese (Ferrer Beltrán, 2017, p.34-39).
Portanto, a prova pericial tem a função de fornecer elementos para que os ope-
radores do direito possam determinar se certo enunciado fático corresponde à reali-
dade, tendo a particularidade de tratar sobre temas que não são de domínio do juiz
e das partes. É a mesma lógica da prova testemunhal, mas com uma diferença: nas
perícias, a informação tem que ser transmitida por um especialista em certa área do

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